Banda de pacientes do Centro de Atenção Psicossocial ganha prêmio


A banda Maluco Voador segue à risca o velho ditado: “quem canta os males espanta”. Toda terça-feira, o grupo tem encontro marcado com a música e, no compasso da zabumba, coloca para fora toda a energia. Em círculo, os participantes cantam, dançam e tocam. Tudo com muita animação. Cada um traz um pouco de suas tradições. Alguns, mais ousados, entoam canções de autoria própria, como o Claudinei da Costa Jesus, 28 anos, que criou o Funk do Maluco Voador.

Formado por pacientes do Centro de Atenção Psicossocial — Caps II, do Paranoá, o grupo surgiu de uma oficina realizada no local. A iniciativa cresceu e ganhou até reconhecimento nacional. Ficou em primeiro lugar na categoria Produções Audiovisuais e Musicais do Prêmio Victor Valla de Educação Popular em Saúde, promovido pelo Ministério da Saúde. “Receber esse prêmio é a concretização de um sonho”, afirma Janaína Barcellos, 37 anos, supervisora administrativa do Caps II. A premiação será entregue em 10 de outubro, em Cuiabá, durante o 7º Congresso Brasileiro de Ciências Humanas e da Saúde.

A ideia de usar a música como tratamento para pessoas com transtornos mentais partiu do psicólogo Filipe Braga, 29, e da própria Janaína Barcellos. Em 2012, a dupla decidiu criar um grupo de arte e cultura. A música foi escolhida como recurso alternativo para os pacientes. Inicialmente, as oficinas contavam apenas com as palmas e as batidas dos pés dos participantes para dar compasso às cantorias.

O grupo busca explorar ritmos populares, como ciranda, coco e baião. Hoje, os integrantes contam com diversos instrumentos, a exemplo de agbê, ganzar, triângulo, pandeiro e zabumba — todos doados ou comprados com o dinheiro dos próprios músicos. O talento da banda não fica restrito aos muros do Caps. A Maluco Voador costuma fazer shows por todo o Distrito Federal, com direito a cachê. O dinheiro é destinado aos integrantes da banda e à aquisição de novos instrumentos.

A oficina é aberta para toda a população. Hoje, conta com cerca de 15 participantes do Caps, além de familiares e voluntários, que, muitas vezes, juntam-se às aulas. “A nossa proposta é fugir dos modelos tradicionais e trabalhar a autonomia, a autoestima e a capacidade de cada um”, explica Janaína.

Bons frutos

O motorista Manoel da Silva, 66, há dois anos, leva o filho Ronielle da Silva, 32, para participar da oficina. “Meu filho fez tratamento em outros locais, mas sem sucesso. Ele era muito agressivo, fugia de casa e passava semanas desaparecido. Com esse projeto, eu vi muita diferença no comportamento dele”, declara.

Uma das pacientes mais antigas, Maria do Rosário dos Santos, 53, está na banda desde o início e aprova a iniciativa. “Antes, eu vivia chorando e com depressão. A música e os remédios me dão equilíbrio. Adoro participar das oficinas e conviver com meus amigos. A música é minha vida.” De tão engajada com a Maluco Voador, Maria do Rosário foi escolhida pelos colegas para receber o prêmio em Cuiabá. “Estou muito ansiosa, mas fiquei muito feliz ao saber que ia representar o grupo. A agradeço aos meus amigos por me escolherem.”

Além de usar a música como recurso terapêutico, o projeto chama a atenção para um novo modelo de tratamento. “Não focamos na doença, o que queremos mostrar é que cada paciente é capaz de conviver na sociedade e ter uma vida normal. Queremos desconstruir aquela imagem de que pessoas com transtornos devem ficar isoladas.”, afirma Filipe Braga.

Veja o vídeo:

Fonte: Correio Braziliense